Qual o impacto da saúde mental na advocacia?

Descubra como a saúde mental afeta diretamente a rotina de advogados, os sinais de alerta mais comuns nos escritórios jurídicos e estratégias eficazes para promover bem-estar e prevenir o burnout na profissão.
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Equipe Turivius

A saúde mental tem ganhado cada vez mais espaço nos debates corporativos, mas no universo jurídico, essa pauta ainda encontra resistência. 

A advocacia, marcada por longas jornadas, prazos apertados, litígios intensos e um ambiente de constante competitividade, impõe aos profissionais uma carga emocional elevada, muitas vezes naturalizada como “parte do ofício”.

Neste artigo, abordamos os efeitos da saúde mental na advocacia, os principais sinais de alerta no ambiente jurídico, e estratégias para promover bem-estar na profissão.

Por que discutir saúde mental na advocacia?

A advocacia é uma das profissões mais suscetíveis ao adoecimento psíquico. A pressão por resultados, os prazos incessantes, a alta carga horária e o contato direto com conflitos humanos tornam o ambiente jurídico “perfeito” para o estresse crônico, ansiedade e depressão.

No Brasil, dados revelam que 30% dos afastamentos por questões médicas entre advogados estão ligados a transtornos mentais. Ainda mais alarmante:  o levantamento realizado pela CAASPsico mostrou que quase 54% dos advogados que buscaram atendimento psicológico online na plataforma, tinham sintomas depressivos.

A relevância do debate está justamente na normalização do sofrimento psicológico nesse setor. O silêncio, o medo de parecer frágil ou descomprometido e a cultura do “heroísmo profissional” reforçam um ciclo nocivo. Quanto mais se evita o assunto, mais se alimenta o estigma e mais grave se torna o problema.

Por isso, discutir saúde mental na advocacia não é apenas uma pauta de qualidade de vida, é uma questão ética, estratégica e institucional.

Como identificar que há algo errado no seu escritório?

Reconhecer os sinais precocemente é fundamental para evitar o agravamento dos quadros emocionais. Nem sempre os indícios são evidentes, mas existem sintomas recorrentes, tanto no comportamento individual quanto no clima organizacional, que merecem atenção:

1. Exaustão constante

A sensação de cansaço que não melhora com o descanso, conhecida como “fadiga crônica”, é um sinal clássico de burnout. Ela afeta a concentração, o humor e a produtividade.

2. Queda de desempenho

Quando um profissional experiente começa a cometer erros básicos, atrasar entregas e demonstrar desorganização, pode estar passando por uma sobrecarga mental.

3. Isolamento e irritabilidade

Evitar interações, reagir de forma agressiva ou defensiva e perder o interesse por tarefas antes prazerosas são indícios comuns de sofrimento emocional.

4. Rotatividade e absenteísmo

Altas taxas de turnover, licenças médicas frequentes ou atrasos sistemáticos podem revelar um ambiente disfuncional e tóxico.

5. Cultura do excesso

Exigir jornadas extensas como rotina, glorificar o trabalho “até de madrugada” e desconsiderar limites pessoais são traços de um modelo insustentável que, cedo ou tarde, cobra seu preço.

Se um ou mais desses sinais estão presentes, é hora de repensar as práticas do escritório, tanto na gestão de pessoas quanto na estrutura da rotina.

Veja também: Atrativos e controvérsias dos Incentivos de Longo Prazo na retenção de talentos

As doenças mentais mais comuns entre os advogados

Advogados enfrentam níveis acima da média de doenças mentais relacionadas ao estresse ocupacional. Entre os transtornos mais recorrentes, destacam-se:

Burnout (Síndrome do Esgotamento Profissional)

Caracteriza-se por um estado de exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional. É especialmente comum em profissões de alta responsabilidade,  como a advocacia, e pode levar ao afastamento prolongado ou até abandono da carreira.

No âmbito dos Tribunais, as decisões envolvendo Burnout obtiveram um aumento expressivo, principalmente nos últimos 3 anos após ser classificada pela OMS como uma doença ocupacional. Neste período houve um aumento de mais de 150% no número de decisões julgadas em todo o país.

Transtornos de ansiedade

Ataques de pânico, sensação de sufocamento, coração acelerado, medo constante e preocupação excessiva são alguns dos sintomas. Muitos advogados vivem em constante estado de alerta, o que contribui para a evolução desse quadro.

Depressão

Sentimento persistente de tristeza, baixa autoestima, apatia, alterações no apetite e no sono, além de pensamentos autodepreciativos ou suicidas, são manifestações comuns. O impacto vai muito além do indivíduo: compromete a capacidade de tomada de decisão e o relacionamento com clientes e colegas.

Compassion fatigue (fadiga por compaixão)

Menos conhecida, essa condição afeta advogados que atuam com vítimas ou causas sensíveis (como direito de família, penal ou trabalhista), levando à perda de empatia e ao distanciamento emocional.

Essas condições não surgem do nada, são o resultado de um contexto organizacional, somado à falta de estratégias preventivas e à cultura do silêncio.

Como promover o bem-estar na advocacia?

Falar sobre saúde mental é o ponto de partida. Mas promover mudanças reais exige medidas práticas e consistentes. Abaixo, destacamos ações que podem ser adotadas tanto por escritórios quanto por advogados autônomos:

1. Estabeleça limites claros entre vida pessoal e profissional

Desencoraje e-mails ou mensagens fora do horário comercial. Incentive o uso de agendas e pausas programadas. Estabeleça um horário de “desconexão digital”.

2. Ofereça apoio psicológico acessível

Convênios com psicólogos, psicoterapia subsidiada ou parcerias com plataformas de atendimento remoto (como Zenklub, Vittude e Telavita) demonstram responsabilidade institucional e geram retorno em engajamento e produtividade.

3. Incentive atividades de autocuidado

Mindfulness, yoga, meditação, exercícios físicos e hobbies devem ser estimulados, não apenas tolerados. Escritórios podem oferecer ginástica laboral, espaço de descanso ou até mesmo pausas remuneradas.

4. Capacite lideranças para reconhecer sinais de alerta

Sócios e coordenadores devem ser treinados para lidar com questões emocionais com empatia e assertividade. A forma como um líder conduz conversas sobre saúde mental pode definir o clima de toda a equipe.

5. Implemente ferramentas de produtividade e automação

O uso de softwares jurídicos para gerenciamento de processos e prazos reduz a sobrecarga cognitiva. Automatizar tarefas repetitivas libera tempo para atividades estratégicas e reduz o estresse diário.

Leia também: Como escolher o software de jurimetria certo para seu escritório

6. Crie um ambiente de segurança psicológica

É essencial que advogados se sintam à vontade para falar sobre suas dificuldades sem medo de represálias ou julgamentos. Essa cultura se constrói com transparência, acolhimento e escuta ativa.

Saúde mental é um pilar da advocacia moderna

Promover saúde mental não é apenas uma ação ética, é uma estratégia inteligente. Escritórios que cuidam do bem-estar de seus profissionais observam aumento de produtividade, redução de rotatividade e melhor clima organizacional.

Em um cenário jurídico cada vez mais competitivo e exigente, a saúde mental deve ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra competência profissional. E, sobretudo, deve ser vista como responsabilidade coletiva.

Ignorar esse tema é insistir em um modelo que já deu sinais claros de esgotamento. Priorizar a saúde mental é investir na longevidade da carreira, na qualidade dos serviços e na humanização do Direito.

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